Cachaça Avuá, produzida em Carmo, na Região Serrana, é exportada para os EUA desde 2013

Por Viviane Faver
De Nova York

A cachaça é a única bebida no mundo a dispor de um repertório variado de madeiras para o envelhecimento, permitindo uma rica experiência cultural e sensorial.  De 2016 para 2017, a exportação de cachaça cresceu em torno de 13%, alcançando US$ 15 milhões. Em igual período, a exportação da cachaça do Estado do Rio de Janeiro para os Estados Unidos cresceu 23% e aproximadamente o mesmo percentual em volume, segundo a vice-presidente da Associação dos Produtores de Cachaça do Estado do Rio de Janeiro (Apacerj), Katia Espírito Santo.
“O Estado do Rio de Janeiro vem se notabilizando como território da cachaça de qualidade, sendo o estado da Federação com o maior número de marcas  certificadas quanto à Conformidade de Processos e Produtos pelo Inmetro. As cachaças fluminenses têm se destacado em premiações mundiais e nacionais”, diz Kátia.
Ela explica ainda que o Rio se destaca com a produção de cachaça de alambique (pot still) por pequenas e médias empresas muito bem equipadas e com alta especialização, alcançando notórios resultados em exportação.
“Entre todos os estados, o Rio de Janeiro ocupa o 2º lugar em valores de exportação de cachaça, sendo São Paulo o maior exportador, e o 3º lugar em volume, atrás somente de São Paulo e Pernambuco”, acrescenta a vice-presidente da Apacerj.
Na opinião do  jornalista e editor do site Devotos da Cachaça e membro da Cúpula da Cachaça, Dirley Fernandes, dos quatro maiores mercados de destilados – China, Índia, Rússia e EUA -, sem dúvida os EUA são os mais próximos, em vários sentidos. “E a personalização, que seguirá como tendência no mercado de destilados, favorece a cachaça, que tem produtos de altíssimo nível”, afirma.
Dirley Fernandes alerta que os cuidados para investir em solo americano começa pela escolha do distribuidor. Ele ressalta, porém, que um dos maiores  erros da história de exportadores brasileiros de cachaça é deixar a promoção do produto na mão do distribuidor. “O setor de cachaça é pouco desenvolvido no que se refere a marketing e promoção. O investimento nessa área é muito baixo”, diz.
Os conceitos mais valorizados atualmente são autenticidade, modelos de produção sustentáveis e alimentos naturais (sem aditivos químicos).  “Esses componentes só precisam ser trabalhados de forma profissional. Isso ainda não vem sendo explorado de forma satisfatória. Existe um esforço de tornar a cachaça ‘igual’ a outros destilados por parte de alguns produtores, o que se reflete em garrafas que emulam conhaques, por exemplo. Melhorar a embalagem é necessário, mas dá para ser mais criativo que isso e  trabalhar identidade própria”, finaliza o especialista, completando que a cachaça só precisa ser dignamente apresentada; o resto do trabalho ela faz sozinha, porque é o melhor e mais variado destilado do planeta.

TRAJETÓRIA

A paixão de Dirley pela cachaça começou como consumidor. Logo em seguida fez um filme chamado Devotos da Cachaça, que fala da presença marcante da cachaça na cultura brasileira. Isso, concomitantemente com sua atividade de jornalista, levou  à criação do site, já que não havia um espaço para notícias exclusivas para o mundo da cachaça. O Devotos da Cachaça é fruto do próprio avanço do setor e, assim como ele, ainda tem muito caminho pela frente.
Exemplo disso é a Cachaça Avuá, produzida em Carmo, no Estado do Rio de Janeiro, que iniciou sua exportação para América do Norte em 2013. O sócio da marca, Nate Whitehouse, conta que no começo foi difícil, mas que contou com vários momentos de sorte, como um encontro casual com Sasha Petraske, um dos bartenders mais influentes do mundo e dono do legendário bar em Nova York, Milk & Honey, que apoiou a marca e causou uma mudança de percepção na cachaça.
“No entanto, ainda há muito a ser feito para educar os consumidores americanos sobre a qualidade da cachaça. A comunidade de cafés e de comidas orgânicas já começou a vê-la como uma ferramenta que eles precisam nos seus bares e ao desenvolver coquetéis inovadores, principalmente em NY, Chicago e Miami”, explica.

Uma das pioneiras para exportação para EUA

Atuando há mais de 30 anos no mercado de exportação nos EUA, Vicente Bastos Ribeiro, sócio proprietário da destilaria Cachaças da Fazenda Soledade responsável por marcas como Nega Fulô, Moleca e Século XVI,  em Nova Friburgo, na Região Serrana do Rio de Janeiro, iniciou a exportação para diversas cidades americanas em 1986.
Ele conta que nos últimos últimos cinco anos obteve um crescimento anual de cerca de 50% nas exportações para terra do Tio Sam.  “O mercado americano de destilados é o maior do mundo. Fazer aliança com importadores e distribuidores americanos e também entre cachaças independentes de empresas brasileiras de pequeno e médio porte vão ser desafios que, em grande medida, determinarão o sucesso de projetos específicos de exportação de cachaça para os EUA”, finaliza Vicente Ribeiro.